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Golden Dream - Quinta-Feira, 09 de Setembro de 2010
 

  A lenda de Urashima Taro- Parábola sobre o retorno animam dekasseguis

Parábola sobre a inquietação do ser humano e o desejo de retornar animam dekasseguis

SÃO PAULO - "Há muitos e muitos anos, um pescador chamado Urashima Taro salvou uma tartaruga que era maltratada por jovens na praia e a devolveu ao mar. Dias depois, enquanto pescava, aquela tartaruga o abordou e, agradecida, levou o pescador para um reino mágico no fundo do mar. No intervalo que ele achou serem dias, Urashima foi muito feliz, vivendo emoções inacreditáveis. Mas veio a saudade e Urashima quis voltar à terra. Recebeu de presente de uma princesa do mar uma arca, que não deveria ser aberta se ele quisesse voltar ao reino. Quando chegou à sua vila, viu que, na verdade, havia se passado muito tempo. Sem encontrar nenhum amigo ou parente vivo, abriu a arca proibida, de onde saiu uma névoa que o fez envelhecer. Então, ele se sentou na areia, e chorou"

Uma das mais impressionantes lendas do folclore japonês, a história de Urashima Taro é uma parábola sobre a inquietação do ser humano. Sobre uma pessoa que, mesmo conseguindo viver em uma terra distante, sente saudades de suas raízes. Nossos dekasseguis – são atualmente 312 mil, segundo o departamento de imigração japonês – experimentam no cotidiano essa fábula milenar. E boa parte acaba, depois de certo tempo, decidindo trocar o salário em ienes pelos reais no holerite brasileiro.

O caso do sansei Sérgio Sumio Oyama, hoje com 37 anos. Em 1992, recém-saído da faculdade de Tecnologia da Informação, ele resolveu partir para a terra de seus avós. Lá, aprendeu, ganhou dinheiro, conheceu novos horizontes e amadureceu. Mas o chamado das raízes foi mais forte. Acabou voltando para o Brasil.

“Era a onda dos dekasseguis”, lembra Oyama. “Muitos outros descendentes estavam indo para lá tentar a vida.”

Naquela época, o Japão ainda simbolizava o Eldorado para os brasileiros – de lá para cá, a remuneração dos dekasseguis só fez cair, mudando um pouco esse conceito. De acordo com estimativas do Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior (Ciate), sociedade civil sem fins lucrativos, o salário passou de cerca de 2 mil ienes (R$ 30,99) por hora, na década de 80, para os atuais 1.100 ienes (R$ 17), em média.

Oyama procurou uma agência de empregos. Informou-se sobre as condições de vida e trabalho no Japão, e partiu. Sua primeira sensação ao chegar foi conflitante. Acostumado a conviver com descendentes de outros povos – italianos, espanhóis, etc. –, pela primeira vez estava em um lugar em que todos se pareciam com ele.

Ao mesmo tempo, eram muito diferentes. “Os costumes, os modos, os lugares... Sempre tive interesse pela cultura japonesa, mas, mesmo assim, é estranho.”

Por outro lado, como já falava um pouco de japonês, aprendido de maneira autodidata, o choque cultural não foi tão forte quanto costuma ser para outros dekasseguis (tanto é que conhecer um pouco da língua está entre as primeiras recomendações dos especialistas para quem quer trabalhar fora). “Ouvia muita música e assistia a filmes japoneses.”

Mas teve de se adaptar com alguns costumes. Para seu espanto, por exemplo, descobriu que os japoneses comem muito pouco. “Foi difícil para mim, que sempre fui bom de garfo.”

Sem prazo para voltar, Oyama chegou para trabalhar em uma empresa que fornecia peças para a Toyota, na cidade homônima da empresa, na província de Aichi, região central. Ficou seis meses. Depois, passou mais dois anos e meio entre as cidades de Fujioka e Maebashi (ambas em Gunma).

Curiosamente, foi justamente no Japão que ele aprendeu que nem sempre as tradições japonesas devem ser seguidas a ferro e fogo. “Percebi que muito do que meus pais e avós falavam, de não questionar ordens e superiores, não funcionava bem para se estabelecer nos empregos e até em outras situações de vida”, conta o sansei. “Não existe a infalibilidade dos mais velhos e dos superiores.”

                                                                Laços

Doze anos depois de voltar para o Brasil, ele conta que a experiência foi uma grande oportunidade de aprendizado e amadurecimento. Fora isso, diz que estreitou sua relação com a cultura japonesa – tanto é que pratica Aikidô (arte marcial voltada para a autodefesa). Hoje, trabalha na Caixa Econômica Federal. Casado, espera o melhor momento de ter filhos. Em relação à terra de seus ancestrais, mais sentimentos dúbios: “Sinto saudades de lá. Mas quero viver aqui.”

Jingle inspirado em lenda de Urashima Taro marcou época

Comercial da Varig é lembrado até hoje, mesmo com a interrupção dos vôos para Tóquio em 2005

SÃO PAULO - Um dos maiores sucessos da propaganda brasileira de todos os tempos é um clássico jingle da Varig inspirado na lenda de Urashima Taro. O compositor Archimedes Messina – autor de peças como a do Café Seleto e a do Theobaldo do Guaraná Antarctica, entre outras – foi contratado para criar o anúncio que divulgaria o início dos vôos da companhia para o Japão, em 1968. E fez isso de forma inesquecível, incorporando o folclore japonês.

Tanto é que em 2003, já passando por severa crise financeira, a empresa fez a alegria dos saudosistas ao retomar a música, na comemoração pelos 35 anos da rota. Desta vez, o jingle foi usado apenas em versão orquestrada.

O vôo inaugural partiu do Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão), no Rio, para Tóquio, em 26 de junho de 1968. O Boeing 707-320 levava 55 passageiros, entre os quais a então primeira-dama Yolanda Costa e Silva e o ex-presidente da Varig Erick de Carvalho.

Mesmo com a interrupção dos vôos para Tóquio, em 2005, o comercial é até hoje lembrado nas festas da comunidade japonesa. Definitivamente, uma propaganda de sucesso.

O jingle original está disponível no site YouTube (www.youtube.com/watch?v=Bor0Jb1ACG0).

Cante junto: “Urashima Taro/Um pobre pescador/Salvou uma tartaruga/E ela, como prêmio, ao Brasil o levou/Pelo Reino Encantado/Ele se apaixonou/E por aqui ficou/Passaram muitos anos/De repente, a saudade chegou/E uma arca misteriosa/De presente, ele ganhou/Ao abri-la, quanta alegria/Vibrou seu coração/Encontrou uma passagem da Varig/E voou feliz para o Japão”.

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   em: 08/02/2008
   fonte: Reynaldo Gollo - Estadão.com.br

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