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Golden Dream - Quinta-Feira, 09 de Setembro de 2010
 

  Yuka Sugiura - Japão pede passagem na avenida com Yukachan, a oriental exibe ginga brasileira.

Oriental com ginga brasileira

Yuka começou a ver pela televisão os desfiles do Carnaval carioca para poder copiar a coreografia das mulatas

Humberto Maia Junior

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A rainha Yuka é a gueixa que faz parte de uma alegoria da escola

Paulo Pinto/AE

A rainha Yuka é a gueixa que faz parte de uma alegoria da escola

SÃO PAULO - Não fosse a expansividade no trato com as pessoas, a japonesa Yuka poderia ser considerada uma típica oriental, alguns anos atrás: magrinha, com longos cabelos negros. Isso até ser convidada para desfilar na escola da samba Unidos do Urbana, da cidade de Nagoya, em 1995. Após adquirir experiência no Carnaval japonês, ela seguiu os passos dos primeiros imigrantes, que chegaram ao Brasil a bordo do navio Kasato-Maru, em 1908. Só que Yuka não pensava em riqueza. Queria apenas sambar.
 
Hoje, aos 36 anos, ela exibe um corpão para mulata nenhuma botar defeito (acrescentou 10 quilos aos 48 que ela tinha nos tempos de Nagoya), além de um belo bronzeado. E escolheu viver na capital baiana, Salvador. "Assim que pisei lá, senti a terra me abraçar. Fui enfeitiçada", conta a dançarina, que neste ano será rainha da bateria da Unidos de Vila Maria. A escola, da Zona Leste de São Paulo, vai apresentar no Anhembi o samba Irashai-Mase, Milênios de Cultura e Sabedoria no Centenário da Imigração Japonesa.

"É uma honra representar a minha cultura", conta Yuka. Para poder participar do desfile, que ocorre no dia 1.º de fevereiro, ela teve de adiar uma cirurgia que precisa fazer - nos dois joelhos. "Estou à base de remédios."

Cultura

Como todo imigrante, no entanto, ela mantém vários traços da cultura original, como cumprimentar uma pessoa juntando as mãos e inclinando o tronco. E a forma como fala o novo idioma? Só conversando com ela para entender o inusitado resultado da mistura dos sotaques baiano e japonês. "Sambar é muito mais fácil que falar português", justifica a dançarina.

E olha que aprender o gingado brasileiro não foi algo simples. O amigo de Nagoya ensinou uns passos básicos, mas Yuka não se deu por satisfeita. Começou a ver pela televisão os desfiles do Carnaval carioca, para poder copiar a coreografia das mulatas. Por três meses, ensaiou cinco horas por dia na frente de um grande espelho.

Já no Brasil, percebeu que o fato de uma japonesa sambar despertava interesse, mas ninguém acreditava que aquela moça magrinha poderia dançar como uma brasileira. Yuka teve dificuldade para conseguir testes para ser bailarina em Salvador e sofria na hora de encarar a platéia.

Fama

Em 2000, o apresentador de um evento que Yuka estava participando resolveu provocar as baianas: "Trouxe uma japonesa que samba melhor que vocês."

Ninguém achou graça na brincadeira e, assim que ela entrou no palco, sobraram vaias. Sem falar da chuva de garrafas plásticas... No fim, porém, Yuka mostrou que o locutor estava certo - e foi muito aplaudida ao deixar o palco.

Depois disso, a carreira emplacou. Em 2002, ganhou o concurso Miss Simpatia, promovido por Jorge Ben Jor, e realizou o sonho de dançar no revéillon do Rio. Não parou mais. Desfilou em escolas cariocas e paulistas, e em 2006 foi escolhida como Símbolo do Carnaval da Bahia. "Meu caminho estava traçado."

Japão pede passagem na avenida
Rejane Tamoto

Milton Mansilha/Luz Yuka Sugiura, da Unidos de Vila Maria: japonesa com sangue de baiana.

Em ano de Centenário da Imigração Japonesa, o saquê e as gueixas deixam de ser tipicamente nipônicos e invadem a festa mais popular do País, o Carnaval. Pelo menos é o que prometem quatro escolas de samba, das quais duas em São Paulo, uma no Rio de Janeiro e outra em Florianópolis (SC).

No Sambódromo paulistano, a Unidos de Vila Maria desfilará o enredo Irashai-Mase, Milênios de Cultura e Sabedoria no Centenário da Imigração Japonesa , com 27 alas e mais de 4 mil integrantes.

A agremiação da zona norte contará a história dos japoneses a partir do momento em que desembarcaram no porto de Santos, a bordo do Kasato Maru. Dentre os temas das alas, haverá menções às gueixas, à festa do Buda e origami. "Irashai-Mase significa bem-vindo. Esse é o espírito, o da construção de uma nação nipo-brasileira", conta a historiadora e coordenadora do desfile da Unidos de Vila Maria, Luciana de Albuquerque Barros.

Durante os ensaios, adereços típicos do oriente, como os leques, aparecem nas mãos de passistas e mestres-salas e as únicas fantasias disponíveis são as que representam o Monte Fuji e os Mangás.

Segundo o coordenador do setor 4, que reúne oito alas, Jefferson Eloy, o Nilo, o diferencial da escola frente às outras que tratam do mesmo tema é a forte presença dos japoneses na passarela do Anhembi. Cerca de 300 deles virão de diferentes cidades do Japão e serão distribuídos nas alas da escola, no dia do desfile.

Musa - Mas a musa da bateria talvez seja a principal japonesa da avenida. Yuka Sugiura, de 36 anos, é de Nagoya, no Japão, e já tem até um nome artístico, Yukachan. Há oito anos, ela faz a ponte entre seu país de origem e o Brasil, que conheceu durante uma viagem de turismo. A convivência com os brasileiros, no entanto, se deu em Salvador, onde já se casou e separou. "Quando pisei na Bahia, me senti mulata", disse.

O resultado foi o sotaque metade japonês e metade baiano de Yuka, que já foi dona de bar e karaokê no Japão, onde sambava antes de vir ao Brasil. "É mais difícil falar português do que sambar", conta, aos risos. O preparo para a responsabilidade de ser a musa incluiu um regime às avessas: Yuka ganhou dez quilos para não fazer feio ao lado das brasileiras. "Sou farofeira, como muita farofa", brinca, ao explicar a dieta de engorda.

Karatê - Com uma homenagem à Okinawa, província de onde emigraram cerca de 40% dos japoneses que estavam no Kasato Maru, a escola paulistana Prova de Fogo quer alcançar o grupo especial. O enredo Cem Anos de Imigração Japonesa, Prova de Fogo é Okinawa neste Carnaval abordará a cultura daquela região do Japão, como em uma viagem de retorno às origens, na qual serão mostradas especialidades do lugar, como a cerâmica, a tecelagem e o karatê.

"Vamos ter um grupo de taikô na bateria", disse o presidente da agremiação, Celso Lima. O presidente conta que este tema o fez descobrir as coincidências existentes entre os japoneses de Okinawa e os afrodescendentes. "Eles cultuam os ancestrais e são felizes, a despeito do sofrimento pelo qual passaram".

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   em: 19/01/2008
   fonte: O Estado de São Paulo / Diário do Comércio

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