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Ligação Brasil-China representa desafio geopolítico para EUA--Antiamericanismo latino e parceria comercial podem ser início de novo bloco de poder
Richard Lapper- 22/05/2004 -
Durante toda a noite, caminhões gigantescos com rodas enormes se arrastam para cima e para baixo nas ladeiras das imensas minas a céu aberto em Carajás, no coração da selva amazônica. Eles carregam minério de ferro na primeira etapa de sua viagem para a China - matéria-prima para alimentar o apetite insaciável do setor industrial do país.
Somente este ano, a Companhia Vale do Rio Doce, a maior companhia de minério de ferro do mundo, investirá US$ 1,8 bilhão para manter as rodas girando. Ela acaba de anunciar planos para o que será o terceiro maior navio cargueiro do mundo, para levar o material ao mercado ainda mais depressa.
"Estamos trabalhando em plena capacidade 24 horas por dia. Não conseguimos atender todas as encomendas", diz Fernando Thompson, da diretoria da CVRD e um dos mais de 450 empresários brasileiros que acompanharão o presidente do país, Luiz Inácio Lula da Silva, em uma visita oficial de quatro dias à China que começa neste domingo (23/05).
A missão de Lula reflete o entusiasmo febril pela China entre a comunidade empresarial brasileira. Mas também chama a atenção para uma tendência econômica com implicações geopolíticas potencialmente enormes. A ligação entre Brasil e China conecta os maiores mercados emergentes dos hemisférios ocidental e oriental. Nas palavras de Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores brasileiro, poderá fazer parte de "uma certa reconfiguração da geografia comercial e diplomática do mundo".
Isso poderá representar um desafio para o governo de George W. Bush, com sua obsessão pelo Oriente Médio e sua miopia sobre os desenvolvimentos em seu próprio quintal. Parte da retórica sobre esse novo relacionamento pode ser remanescente de reuniões do antigo movimento dos não-alinhados.
Mas a nova conexão "sul-sul" é mais importante porque se baseia em fundamentos econômicos. A China pode representar uma ameaça competitiva para o México e países no norte da região que se beneficiaram da exportação de bens manufaturados para os Estados Unidos. Mas países como Brasil e Argentina são uma rica fonte de alimentos e matérias-primas de que a China precisa para alimentar sua crescente população urbana e suas indústrias florescentes.
A China tem o índice de poupança e o capital que a América Latina nunca teve. Há sinais do efeito China em toda a região. Plantadores de soja da Argentina, Brasil, Paraguai e até da Bolívia desfrutaram uma bonança nos últimos meses. As minas de cobre do Chile e do Peru estão pujantes. A demanda da China no ano passado foi um dos motivos do aumento da maioria dos preços das commodities. Hoje há sinais de um boom de investimentos recíproco da China na região.
Nos próximos dias, Lula discutirá planos para investimentos chineses em estradas, portos e ferrovias - projetos que garantiriam o abastecimento de matérias-primas. Segundo um estudo recente da Conferência sobre Comércio e Desenvolvimento da ONU, a China será o quinto maior fornecedor mundial de investimentos estrangeiros diretos este ano.
No próximo ano a China deverá aderir ao Banco Interamericano de Desenvolvimento, dando acesso a suas empresas construtoras aos projetos de infra-estrutura do banco.
Existem riscos evidentes para a América Latina. As commodities parecem ter chegado a um pico, e uma desaceleração muito acentuada do crescimento econômico chinês de seu atual nível de mais de 9% ao ano poderá reduzir ainda mais os preços. A maior preocupação, porém, é que o boom de commodities possa encerrar a América Latina em um novo ciclo de dependência da produção de matérias-primas, distorcendo ainda mais os padrões de desenvolvimento. Ambos os temores são provavelmente exagerados. Os atuais índices de investimento da China certamente são insustentáveis.
Mas, por mais perturbadora que seja em médio prazo, uma desaceleração - ou mesmo uma quebra - não deterá a inexorável modernização da China. A dependência de matérias-primas pode criar vulnerabilidades, mas o boom também oferece à América Latina a melhor oportunidade desde o início do século 20 de capitalizar sua vantagem comparativa como produtora competitiva de matérias-primas . O caminho do progresso é concentrar-se em áreas que agregam valor - produzir vinho, petróleo e aço, e não apenas uvas, sementes e minério de ferro.
O desafio para os Estados Unidos é mais complexo. O sistema interamericano, modificado ao final da Guerra Fria para promover as economias de mercado e a democracia na região, parece esfarrapado. Com Bush, os Estados Unidos observaram inutilmente enquanto um país após o outro tropeçava em crises financeiras ou políticas.
Países como México e Colômbia desfrutaram de laços preferenciais com Washington em conseqüência de acordos comerciais ou considerações de segurança, mas as relações com outros países, incluindo Brasil, Argentina e Venezuela, se deterioraram.
A influência chinesa nesse último grupo de países ricos em matérias-primas poderá eventualmente agravar essas divisões e até levar à formação de novos blocos de poder na região. Para evitar esse resultado, os Estados Unidos - juntamente com a Europa e o Japão - devem parar de excluir os agricultores sul-americanos de seus mercados. Precisam reconhecer que seus mercados de trabalho precisam de trabalhadores latino-americanos e oferecer um regime mais seguro para os imigrantes.
E precisam dar mais apoio às iniciativas multilaterais para melhorar a infra-estrutura. Essa agenda pode ser politicamente custosa, mas o fracasso também terá um preço. No melhor caso, o baixo nível de antiamericanismo na região, que resultou num apoio inconsistente e a contragosto aos Estados Unidos em seu combate ao terror, crescerá. No pior caso, a política antiamericana mais visceral demonstrada pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, poderá ganhar popularidade. É por isso que, no mínimo, Washington precisa prestar atenção.
Durante toda a noite, caminhões gigantescos com rodas enormes se arrastam para cima e para baixo nas ladeiras das imensas minas a céu aberto em Carajás, no coração da selva amazônica. Eles carregam minério de ferro na primeira etapa de sua viagem para a China - matéria-prima para alimentar o apetite insaciável do setor industrial do país.
Somente este ano, a Companhia Vale do Rio Doce, a maior companhia de minério de ferro do mundo, investirá US$ 1,8 bilhão para manter as rodas girando. Ela acaba de anunciar planos para o que será o terceiro maior navio cargueiro do mundo, para levar o material ao mercado ainda mais depressa.
"Estamos trabalhando em plena capacidade 24 horas por dia. Não conseguimos atender todas as encomendas", diz Fernando Thompson, da diretoria da CVRD e um dos mais de 450 empresários brasileiros que acompanharão o presidente do país, Luiz Inácio Lula da Silva, em uma visita oficial de quatro dias à China que começa neste domingo (23/05).
A missão de Lula reflete o entusiasmo febril pela China entre a comunidade empresarial brasileira. Mas também chama a atenção para uma tendência econômica com implicações geopolíticas potencialmente enormes. A ligação entre Brasil e China conecta os maiores mercados emergentes dos hemisférios ocidental e oriental. Nas palavras de Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores brasileiro, poderá fazer parte de "uma certa reconfiguração da geografia comercial e diplomática do mundo".
Isso poderá representar um desafio para o governo de George W. Bush, com sua obsessão pelo Oriente Médio e sua miopia sobre os desenvolvimentos em seu próprio quintal. Parte da retórica sobre esse novo relacionamento pode ser remanescente de reuniões do antigo movimento dos não-alinhados.
Mas a nova conexão "sul-sul" é mais importante porque se baseia em fundamentos econômicos. A China pode representar uma ameaça competitiva para o México e países no norte da região que se beneficiaram da exportação de bens manufaturados para os Estados Unidos. Mas países como Brasil e Argentina são uma rica fonte de alimentos e matérias-primas de que a China precisa para alimentar sua crescente população urbana e suas indústrias florescentes.
A China tem o índice de poupança e o capital que a América Latina nunca teve. Há sinais do efeito China em toda a região. Plantadores de soja da Argentina, Brasil, Paraguai e até da Bolívia desfrutaram uma bonança nos últimos meses. As minas de cobre do Chile e do Peru estão pujantes. A demanda da China no ano passado foi um dos motivos do aumento da maioria dos preços das commodities. Hoje há sinais de um boom de investimentos recíproco da China na região.
Nos próximos dias, Lula discutirá planos para investimentos chineses em estradas, portos e ferrovias - projetos que garantiriam o abastecimento de matérias-primas. Segundo um estudo recente da Conferência sobre Comércio e Desenvolvimento da ONU, a China será o quinto maior fornecedor mundial de investimentos estrangeiros diretos este ano.
No próximo ano a China deverá aderir ao Banco Interamericano de Desenvolvimento, dando acesso a suas empresas construtoras aos projetos de infra-estrutura do banco.
Existem riscos evidentes para a América Latina. As commodities parecem ter chegado a um pico, e uma desaceleração muito acentuada do crescimento econômico chinês de seu atual nível de mais de 9% ao ano poderá reduzir ainda mais os preços. A maior preocupação, porém, é que o boom de commodities possa encerrar a América Latina em um novo ciclo de dependência da produção de matérias-primas, distorcendo ainda mais os padrões de desenvolvimento. Ambos os temores são provavelmente exagerados. Os atuais índices de investimento da China certamente são insustentáveis.
Mas, por mais perturbadora que seja em médio prazo, uma desaceleração - ou mesmo uma quebra - não deterá a inexorável modernização da China. A dependência de matérias-primas pode criar vulnerabilidades, mas o boom também oferece à América Latina a melhor oportunidade desde o início do século 20 de capitalizar sua vantagem comparativa como produtora competitiva de matérias-primas . O caminho do progresso é concentrar-se em áreas que agregam valor - produzir vinho, petróleo e aço, e não apenas uvas, sementes e minério de ferro.
O desafio para os Estados Unidos é mais complexo. O sistema interamericano, modificado ao final da Guerra Fria para promover as economias de mercado e a democracia na região, parece esfarrapado. Com Bush, os Estados Unidos observaram inutilmente enquanto um país após o outro tropeçava em crises financeiras ou políticas.
Países como México e Colômbia desfrutaram de laços preferenciais com Washington em conseqüência de acordos comerciais ou considerações de segurança, mas as relações com outros países, incluindo Brasil, Argentina e Venezuela, se deterioraram.
A influência chinesa nesse último grupo de países ricos em matérias-primas poderá eventualmente agravar essas divisões e até levar à formação de novos blocos de poder na região. Para evitar esse resultado, os Estados Unidos - juntamente com a Europa e o Japão - devem parar de excluir os agricultores sul-americanos de seus mercados. Precisam reconhecer que seus mercados de trabalho precisam de trabalhadores latino-americanos e oferecer um regime mais seguro para os imigrantes.
E precisam dar mais apoio às iniciativas multilaterais para melhorar a infra-estrutura. Essa agenda pode ser politicamente custosa, mas o fracasso também terá um preço. No melhor caso, o baixo nível de antiamericanismo na região, que resultou num apoio inconsistente e a contragosto aos Estados Unidos em seu combate ao terror, crescerá. No pior caso, a política antiamericana mais visceral demonstrada pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, poderá ganhar popularidade. É por isso que, no mínimo, Washington precisa prestar atenção.
Durante toda a noite, caminhões gigantescos com rodas enormes se arrastam para cima e para baixo nas ladeiras das imensas minas a céu aberto em Carajás, no coração da selva amazônica. Eles carregam minério de ferro na primeira etapa de sua viagem para a China - matéria-prima para alimentar o apetite insaciável do setor industrial do país.
Somente este ano, a Companhia Vale do Rio Doce, a maior companhia de minério de ferro do mundo, investirá US$ 1,8 bilhão para manter as rodas girando. Ela acaba de anunciar planos para o que será o terceiro maior navio cargueiro do mundo, para levar o material ao mercado ainda mais depressa.
"Estamos trabalhando em plena capacidade 24 horas por dia. Não conseguimos atender todas as encomendas", diz Fernando Thompson, da diretoria da CVRD e um dos mais de 450 empresários brasileiros que acompanharão o presidente do país, Luiz Inácio Lula da Silva, em uma visita oficial de quatro dias à China que começa neste domingo (23/05).
A missão de Lula reflete o entusiasmo febril pela China entre a comunidade empresarial brasileira. Mas também chama a atenção para uma tendência econômica com implicações geopolíticas potencialmente enormes. A ligação entre Brasil e China conecta os maiores mercados emergentes dos hemisférios ocidental e oriental. Nas palavras de Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores brasileiro, poderá fazer parte de "uma certa reconfiguração da geografia comercial e diplomática do mundo".
Isso poderá representar um desafio para o governo de George W. Bush, com sua obsessão pelo Oriente Médio e sua miopia sobre os desenvolvimentos em seu próprio quintal. Parte da retórica sobre esse novo relacionamento pode ser remanescente de reuniões do antigo movimento dos não-alinhados.
Mas a nova conexão "sul-sul" é mais importante porque se baseia em fundamentos econômicos. A China pode representar uma ameaça competitiva para o México e países no norte da região que se beneficiaram da exportação de bens manufaturados para os Estados Unidos. Mas países como Brasil e Argentina são uma rica fonte de alimentos e matérias-primas de que a China precisa para alimentar sua crescente população urbana e suas indústrias florescentes.
A China tem o índice de poupança e o capital que a América Latina nunca teve. Há sinais do efeito China em toda a região. Plantadores de soja da Argentina, Brasil, Paraguai e até da Bolívia desfrutaram uma bonança nos últimos meses. As minas de cobre do Chile e do Peru estão pujantes. A demanda da China no ano passado foi um dos motivos do aumento da maioria dos preços das commodities. Hoje há sinais de um boom de investimentos recíproco da China na região.
Nos próximos dias, Lula discutirá planos para investimentos chineses em estradas, portos e ferrovias - projetos que garantiriam o abastecimento de matérias-primas. Segundo um estudo recente da Conferência sobre Comércio e Desenvolvimento da ONU, a China será o quinto maior fornecedor mundial de investimentos estrangeiros diretos este ano.
No próximo ano a China deverá aderir ao Banco Interamericano de Desenvolvimento, dando acesso a suas empresas construtoras aos projetos de infra-estrutura do banco.
Existem riscos evidentes para a América Latina. As commodities parecem ter chegado a um pico, e uma desaceleração muito acentuada do crescimento econômico chinês de seu atual nível de mais de 9% ao ano poderá reduzir ainda mais os preços. A maior preocupação, porém, é que o boom de commodities possa encerrar a América Latina em um novo ciclo de dependência da produção de matérias-primas, distorcendo ainda mais os padrões de desenvolvimento. Ambos os temores são provavelmente exagerados. Os atuais índices de investimento da China certamente são insustentáveis.
Mas, por mais perturbadora que seja em médio prazo, uma desaceleração - ou mesmo uma quebra - não deterá a inexorável modernização da China. A dependência de matérias-primas pode criar vulnerabilidades, mas o boom também oferece à América Latina a melhor oportunidade desde o início do século 20 de capitalizar sua vantagem comparativa como produtora competitiva de matérias-primas . O caminho do progresso é concentrar-se em áreas que agregam valor - produzir vinho, petróleo e aço, e não apenas uvas, sementes e minério de ferro.
O desafio para os Estados Unidos é mais complexo. O sistema interamericano, modificado ao final da Guerra Fria para promover as economias de mercado e a democracia na região, parece esfarrapado. Com Bush, os Estados Unidos observaram inutilmente enquanto um país após o outro tropeçava em crises financeiras ou políticas.
Países como México e Colômbia desfrutaram de laços preferenciais com Washington em conseqüência de acordos comerciais ou considerações de segurança, mas as relações com outros países, incluindo Brasil, Argentina e Venezuela, se deterioraram.
A influência chinesa nesse último grupo de países ricos em matérias-primas poderá eventualmente agravar essas divisões e até levar à formação de novos blocos de poder na região. Para evitar esse resultado, os Estados Unidos - juntamente com a Europa e o Japão - devem parar de excluir os agricultores sul-americanos de seus mercados. Precisam reconhecer que seus mercados de trabalho precisam de trabalhadores latino-americanos e oferecer um regime mais seguro para os imigrantes.
E precisam dar mais apoio às iniciativas multilaterais para melhorar a infra-estrutura. Essa agenda pode ser politicamente custosa, mas o fracasso também terá um preço. No melhor caso, o baixo nível de antiamericanismo na região, que resultou num apoio inconsistente e a contragosto aos Estados Unidos em seu combate ao terror, crescerá. No pior caso, a política antiamericana mais visceral demonstrada pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, poderá ganhar popularidade. É por isso que, no mínimo, Washington precisa prestar atenção.
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