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Sonho de Grandeza - China será maior economia do mundo em 30 anos

Especial : _As ambições do planeta China -Eurípedes Alcântara -AFP -SONHO DE GRANDEZA : Mao Tsé-tung sonhava em mandar um chinês ao espaço. Yang Liwei entrou em órbita 27 anos depois da morte do líder -Desde sempre a civilização chinesa desperta atenção por seus impressionantes 7 000 anos de história documentada, pelo idioma impenetrável, pela população de 1,3 bilhão de pessoas, quase dez Brasis, e pelo fato de ser oficialmente um país comunista. A China, que na semana passada se tornou o terceiro país a colocar um homem em órbita, vem nas duas últimas décadas chamando a atenção do Ocidente pela maneira obstinada e bem-sucedida com que busca o crescimento econômico e um lugar entre as grandes potências mundiais. Posto, aliás, que ela já ocupou. Até pouco antes da Revolução Francesa, em 1789, a China era militarmente invencível e famosa por uma burocracia dinâmica e seus sábios conheciam segredos da medicina, da matemática e da ciência que só se popularizariam ou seriam descobertos no Ocidente com algum atraso. -Ao período áureo seguiu-se um ciclo de 150 anos de estagnação do qual a China só começou a escapar no começo da década de 80. O guerreiro e estadista Mao Tsé-tung criou a moderna e comunista República Popular da China, a partir da vitória de seu partido na revolução de 1949. Nos anos 80, seu sucessor Deng Xiaoping, com a determinação de um vegetariano que passa a comer carne, decidiu criar províncias onde o capitalismo não seria apenas permitido, mas incentivado. Seis anos depois da morte de Deng, a China marcha a um ritmo de crescimento de 8% ao ano para ser, em pouco mais de três décadas, a maior economia do mundo. -Um estudo do banco de investimentos americano Goldman Sachs divulgado na semana passada estima que a China, mesmo que diminua pela metade seu ritmo anual de crescimento, vai se tornar a economia mais forte do planeta, passando os Estados Unidos, por volta do ano 2040. Nesse grande salto à frente, a Inglaterra seria ultrapassada em 2005, a Alemanha em 2007, o Japão em 2016. Ainda assim, em virtude dos descomunais pecados sociais do passado e da enorme miséria atual, mesmo quando ultrapassar em tamanho a economia americana a China não será o melhor país para viver. Segundo o mesmo estudo, em 2041 a renda per capita chinesa ainda seria metade da inglesa e não passaria de 40% da americana. Os números atuais e as projeções mostram que a China é bem menor hoje do que parece, mas será muito maior e mais poderosa do que a maioria das pessoas pode imaginar. O crescimento sustentado chinês nas duas últimas décadas ocorreu sem surtos inflacionários. -"A China teve os meios, os motivos e aproveitou as oportunidades para sair da estagnação", resume o pesquisador americano Ross Terril, autor do livro O Novo Império Chinês. Os meios vieram principalmente da imensa massa de recursos externos investidos no país por americanos, europeus e pelos próprios milionários chineses no exterior. Entre 1980 e 2000, a China recebeu quase meio trilhão de dólares de investimentos diretos externos. Para efeito de comparação, no mesmo período a Índia, país de população pouco menor que a chinesa, atraiu um décimo desse valor. Além disso, na média anual dessas duas décadas os dólares produzidos pela agressiva política de exportações chegaram a 100 bilhões anuais. Somem-se a isso os projetos estatais de incentivo à livre iniciativa, que em alguns anos chegaram a consumir 36% do orçamento chinês, e se tem uma boa fotografia do milagre econômico promovido no país de Mao e Deng Xiaoping. As novas oportunidades vieram com os movimentos de globalização do capital e a necessidade premente do capitalismo ocidental de encontrar mão-de-obra barata e consumidores para seus produtos. Mão-de-obra barata sobra na China. Consumidores potenciais também. -Desde que resolveu se abrir economicamente há pouco mais de vinte anos, a China produziu duas sensações quase opostas no bloco de países ocidentais. A primeira foi a cobiça dos estrangeiros por seu mercado interno gigantesco. A segunda, o temor de sua desestabilizadora capacidade potencial de exportação. Pelo menos por enquanto, na avaliação cautelosa dos analistas internacionais, a China é ainda muito pobre e dependente do capital e do comércio exteriores para ameaçar militarmente os vizinhos da Ásia ou se insurgir contra as potências ocidentais. Seu PIB per capita ainda é de cerca de um quinto do brasileiro – miserável, portanto. Mas, no espetacular ritmo de crescimento sustentado que vem mantendo há décadas, a China logo terá arrebentado essa barreira que tolhe o progresso dos países pobres. -A viagem do tenente-coronel Yang Liwei em volta da Terra, na semana passada, vai além da sinalização de domínio da tecnologia espacial. Como tudo na China, esse vôo orbital tripulado tem fortes componentes militares, comerciais e de propaganda interna dos sucessos do regime que detém o poder ditatorial sobre o país, a despeito da bem-sucedida abertura econômica. Nada menos do que 100.000 membros do Partido Comunista Chinês tornaram-se empresários, aproveitando suas conexões e as leis neoliberais das chamadas "zonas especiais", onde pôsteres enormes descreviam Liwei na semana passada como o "taikonauta da prosperidade". Os americanos batizaram seus viajantes do espaço de astronautas. Os russos preferem o nome cosmonauta. Os chineses se dividem entre taikonauta, derivado do termo "tai kong", que significa espaço exterior, e "yuhangyuan", que pode ser traduzido com certa liberdade por "navegador do espaço". -Como quase todo membro da elite político-militar da China, o taikonauta Liwei, de 38 anos, vive com conforto em uma grande cidade da região costeira do país. Na terça-feira passada, a bordo da Shenzhou V, a "Nave Divina", ele chegou ao espaço com 42 anos de atraso em relação ao vôo pioneiro do russo Yuri Gagarin – que chocou os Estados Unidos e acelerou o lançamento do americano John Glenn ao espaço um ano depois. O projeto orbital tripulado custou aos chineses 2,5 bilhões de dólares. A nave de Liwei partiu da província de Gansu, uma das duas regiões mais pobres, onde a maioria das pessoas sobrevive com pouco mais de 1 dólar por dia. Gansu tem uma população rural que ainda trabalha o solo como seus antepassados faziam centenas de anos atrás e seu PIB per capita é de menos de 500 dólares, um décimo do brasileiro. O contraste entre a nave flamejante do coronel Liwei e a pobreza dos moradores de Gansu é um retrato da moderna China, a mais contraditória e enigmática das grandes nações (veja reportagem). O PODER NO ESPAÇO : O programa espacial foi aprovado pela cúpula dirigente (abaixo). Astronautas chineses em treinamento na Rússia (acima) -Marcel Gubaidulin -A última vez que um evento chinês ocupou tão amplamente o espaço na televisão e na imprensa do Ocidente foi em 1989, quando tropas do Exército Vermelho massacraram uma rebelião de estudantes na Praça da Paz Celestial, em Pequim, expondo o caráter brutal e repressivo do poder central na China. Militarmente, o vôo do taikonauta contém uma lição simples: quem consegue colocar um homem em órbita consegue plantar um míssil em qualquer capital ocidental. "Os mísseis nucleares chineses não passam de duas dezenas e são velhos e lentos, podendo ser destruídos mais facilmente pelos atuais dispositivos de defesa", disse a VEJA Robert Karniol, editor da mais respeitada revista de temas militares e espaciais do mundo, a americana Jane's Defence Weekly. Segundo Karniol, dentro de quinze anos os chineses poderão ter sessenta mísseis intercontinentais, com pontaria e propulsão melhores, capazes de penetrar até o planejado escudo do projeto americano Guerra nas Estrelas. "Acredito que, depois de décadas focada apenas na defesa do próprio território, a estratégia militar chinesa começa a se preparar para confrontar um inimigo antes que ele possa chegar a suas fronteiras", diz Karniol. Com catorze vizinhos fronteiriços e uma longa história de conquistas e anexações, como a vergonhosa dominação do Tibete, a China vive em constante tensão bélica. O inimigo número 1 é Taiwan, a ilha vizinha para onde fugiu a elite endinheirada que foi derrotada pelos comunistas de Mao Tsé-tung em 1949. Pequim chama Taiwan de "província renegada" e não passa um dia sem que os jornais oficiais tragam ameaças de invasão da ilha. Especialistas militares garantem, porém, que uma invasão chinesa sem o uso de armas nucleares seria rechaçada com facilidade pelos equipamentos de defesa de alta tecnologia fornecidos pelos Estados Unidos a Taiwan. -A China já colocou setenta satélites comerciais do Ocidente em órbita, passando os Estados Unidos nesse milionário mercado. Por enquanto, a China ainda faz menos vôos pagos que a União Européia, mas a estimativa é que ela logo alcance e passe os europeus. A China tem pressa em todos os campos. Com razão. Bill Emmott, editor da revista inglesa The Economist, em um livro recente sobre as lições do século passado para o atual, resume o dilema do gigantesco país asiático. "A China precisa se mover rapidamente apenas para se manter de pé", diz Emmott. A imagem é a de um urso de circo fazendo acrobacias em um monociclo. Uma análise dos dados mostra um país que se precipita afoitamente para a frente em um ensaio ao vivo de seu próprio futuro, que terá conseqüências para todo o mundo. A base instalada impressiona pouco. Com exportações anuais de 489 bilhões de dólares, a China mal chega a 16% do total das vendas externas da União Européia. Sem contar o enclave de Hong Kong, devolvido pelos ingleses em 1997, seu PIB per capita ocupa a 141ª posição mundial, o que coloca o país atrás do Sri Lanka. Mas o que a China já representa em alguns setores do comércio mundial e o que pode vir a ser nos próximos anos é um assombro. -"No mercado de matérias-primas, a China já é o motor do mundo e a grande referência de preços", diz Benjamin Steinbruch, o principal acionista da Companhia Siderúrgica Nacional. As relações comerciais da economia brasileira com a China crescem geometricamente. O Brasil vende carros, aviões, soja, minério de ferro e madeira aos chineses. A China vende às empresas brasileiras aparelhos eletrônicos e de telecomunicações, carvão, matérias-primas químicas, motores e circuitos integrados. Em apenas um ano, de 2001 a 2002, a China saiu da sétima para a segunda posição na lista dos maiores compradores de produtos do Brasil (veja a reportagem). Os ritmos chineses são alucinantes. Em dez anos, eles elevaram o padrão de vida de 270 milhões de pessoas, ou 20% de sua população, que saiu da miséria quase absoluta para um padrão razoável de vida. Desse grupo, nada menos que 65 milhões de pessoas atingiram os padrões de classe média, que compra automóveis, telefones celulares e assinam televisões a cabo. Na terra e no espaço, a China pede passagem.

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