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Morador presenteia bairro com gaivotas de papel
Imigrante revive tradição oriental e ensina quem quiser a fazer “mil felicidades” - Materia de LUCIANA GARBIN -
.....Além de praça, o artista é conhecido na linha do metrô Sé-Vila Madalena. “Crianças choram quando dou uma gaivota” _
--Ao contrário de outras praças da cidade, a maioria dos pássaros da Caetano Fraccaroli, em Pinheiros, não é de verdade, mas de papel. Encapados com plásticos para resistirem às chuvas, são um presente ao bairro de um morador conhecido da região: o aposentado Katsuo Abe, de 61 anos.__
Imigrante japonês, no Brasil desde 1956, ele estima ter feito nos últimos oito anos cerca de 20 mil dobraduras. Aprendeu a montar os passarinhos ainda criança, mas passou a dedicar-se diariamente depois de ter sofrido um grave acidente. Quando melhorou, queria agradecer a Deus por ter sobrevivido e aos brasileiros por tê-lo acolhido. Lembrou então de uma tradição de sua terra natal, que diz que dar gaivotas significa desejar “mil felicidades” e passou a distribuir os origamis.__
Choro – Além de decorar as árvores, todos os dias Katsuo sai de casa com os bolsos cheios de pedaços de papel com sua frase predileta – “Deus te acompanhe sempre” – escrita em cada um. Até voltar, os terá transformado em 30 ou 40 dobraduras e distribuído às pessoas nos pontos de ônibus, casas comerciais, gabinetes da Câmara e pelas ruas. Pelo caminho, também ensina quem lhe pede. “Na linha Sé-Vila Madalena do metrô, 99% das pessoas já me conhecem e às vezes tem até criança chorando que pára quando dou a gaivota. Isso dá muita felicidade.” __
Na praça, Katsuo também coloca avisos. Um desses, por exemplo, dizia em um português enrolado que os passarinhos de papel não podiam ser roubados e quem quisesse poderia ir a seu prédio, pedir-lhe uma cópia. Junto, pôs seu endereço e o lembrete de que Deus estaria vendo os ladrões. __
Mesmo assim, a maioria dos origamis desapareceu e o aposentado lamenta que ninguém tenha ido a sua casa pedi-los. Sem nunca desanimar, já planeja, no entanto, repor os pássaros, assim como fez com uma árvore que fica na entrada da Estação Sumaré do Metrô. “Deus me salvou. Que dinheiro consegue pagar esse amor? Nenhum. Vim do Japão para cá, não tive filhos e, quando eu morrer, em sinal de respeito, vou deixar as gaivotas e as árvores para o futuro do Brasil.” __
Comércio pioneiro – Nascido em Tóquio, Katsuo administrou por 23 anos em Higienópolis a Pacaembu Comércio de Flores Limitada, o primeiro ponto comercial da Praça Vilaboim. Nos anos 90, acabou perdendo o ponto, o que lhe traz lágrimas aos olhos até hoje. Pensou então em fazer um jardim japonês na praça e conseguiu 2.081 assinaturas de moradores a favor, mas o projeto não vingou. Mais tarde, veio o sonho dos origamis. __
A mulher, Diná, é responsável por comprar um pacote de cem folhas de sulfite por semana. Com cada folha, dá para fazer duas gaivotas de papel. Para as dobraduras maiores, destinadas aos amigos especiais, usa folhas de cartolina. Dessas últimas, uma sobrevive desde novembro decorada com fitas com as cores da bandeira brasileira numa árvore da praça. Gente conhecida, como os governadores Laudo Natel e Mário Covas, receberam seus origamis, que ele agora quer entregar também para a prefeita Marta Suplicy. __
E ainda planeja voltar a distribuir origami em hospitais e zelar pela praça perto de sua casa, que, além dos passarinhos de papel, ganha laços de fita no Natal e um painel colorido com grafites, no lugar do paredão cinzento, com ajuda do aposentado. Katsuo ainda costuma tirar fotos do que está errado na região e mandá-las para os vereadores. “É o meu respeito de japonês para com os brasileiros”, explica.
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